A vida é uma sinuca, mas confio no meu taco.
" Os meus passos quietos são quedas livres, fugindo de uma liberdade de asas feridas que não se encaixa em seus horizontes estreitos. Somos paralelos que se chocam a todo momento, assim como as ondas dos olhos às vezes encontram pedras em outras pupilas. Eu queria poder dizer que o tempo vai além do teu relógio, mas existe uma parte de mim que também sente urgência na eternidade e aconchego em pressas e preces. Eu deveria dizer que as estrelas brilham mesmo quando o sol ofusca nossa visão, mas a constelação que insisto em chamar de minha só brilha quando todos dormem, quando o sonho é maior que a razão e a via láctea é um cisco insignificante nos teus cílios. Os meus pássaros são pares de olhos cansados e sem borda, que seguem os rastros do céu e pegadas na água, que apanham borboletas e sussurros no meio do caos. Às vezes eu simplesmente não sei o que estou fazendo, meu bem. E não consigo ver a liberdade poética nas gaiolas do mundo sem fugir pelas tangentes. Voar é sempre um desafio pra quem pulsa caos e destila espectros, pra quem procura céus nos abismos do teu peito. E eu, que ainda não alcancei nem mesmo minhas próprias expectativas, sou a luz que entra pelas cortinas: sorrateira e íntima, mas nunca próxima o suficiente para ser guardada no teu bolso esquerdo. Nunca próxima o suficiente para pousar sem estilhaçar o céu. "
" Entre e sente-se, aceita um chá? Perdoe-me um pouco por causa do gosto, tem um pouco de saudade e amargura dentro. Se sentir um gosto um pouco salgado, também me perdoe, foi inevitável, algumas lágrimas rolaram. Isso não é convite para um chá se é o que pensa, te chamei pois precisávamos falar de assuntos sérios. Nem adianta olha com essa cara de piedade, já deve imaginar o que tenho para lhe falar, por isso não adianta fugir. Aprendi a lidar com você, todos as portas e janelas estão fechadas, fugir é impossível, a sua única saída é ficar. Nem adianta começar a falar que forçar algo faz mal, eu sei disso, fui forçada a perder pessoas e olha como estou. Ser boazinha e esperar só me rendeu machucados, vi que quem trapaceava estava sempre a sorrir, parece que algo está errado não? Sim, estava e nada faria isso mudar. Pessoas fazem protestos contra infração, falta de estrutura ou o que lhes desagradam, porque também não posso fazer o meu protesto? E farei: por pessoas que saibam arranjar desculpas melhores ao ir embora, que o apego seja somente a quem ficar, pelo desapego ligeiro como carros de corrida, pela correspondência de sentimentos nobres e que todos venham com aviso da data de validade na minha vida. Isso mesmo, faça caretas, me chame de doida e comece a me explicar todas as leis da vida assim como a maioria conhece que não vai adiantar. Fiz as minhas próprias leis e é a minha vez de explicar. Sim, não podemos obrigar alguém a ficar, mas também não somos obrigados a partir. Toda regra tem sua exceção e se várias exceções ocorrer ela deixa de ser regra e passa a ser uma exceção. E há mais caminhos do que se possa imaginar para alcançar determinada meta, basta querer enxergar. Agora que me ouviu e sei que prestou atenção irei abrir as janelas e as portas e podes ir, porque agora não existe essa desculpa que “faz parte”, seja verdadeiro comigo, no fundo só vai embora quem quer ou de quem tapa os olhos e segue o padrão. Porque partir faz parte do fluxo da vida, mas permanecer é reinventar a vida. "
" É curioso que a vida, quanto mais vazia, mais pesa. "
" Depois de estar com você, de sentir teu cheiro, tua pele, encostar a mão no seu rosto, ouvir coisas banais, enroscar meus dedos em seus cabelos, enfim, de sentir você, eu tenho, tive e sempre terei absoluta certeza de que eu não quero que você saia da minha rotina. Permaneça sempre, por favor. "
" Quando o céu ficar escuro e começar a chover, a gente caminha junto pra cima das nuvens, quando as noites frias chegarem a gente se abraça entre um carinho e outro, e quando a escuridão tomar a noite e apagar as estrelas, você sorri pra mim. "
" Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você.
Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo. Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você. Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação duvidosa do mundo, mas a poesia inexplicável da vida. Eu torço por você. "
" Poeta em véspera de eleição ou em dia de eleição mesmo é coisa esquisita. Passa na rua e vê os políticosna beira da zona eleitoral, eles estão sempre com um sorriso malando de lado, bem de lado, maquinando uma forma de promover sua bondade e sua boa origem, mas sem fazer boca de urna, sem ser preso, multado, se enroscar com a justiça, que é velha desconhecida deles. Poeta passa e vê essas coisas e tem de ficar calado, não é papel de escritor colocar a o trombone na boca e deslanchar xingamentos e denúncias. Poeta passa, poeta entra na cabina de votação, poeta vota, pega um ar do lado de fora, conversa com pouco com amigos e conhecidos, mas não com políticos e, quando chega em casa, poeta quer dormir. Quer dormir porque não se importa com o futuro do Brasil? Não, não, quer dormir para ver se, quando ele levantar no fim da tarde e comecinho da noite, vai ouvir a Voz do Brasil anunciar que finalmente o povo fez a coisa certa e não ficou rodando eternamente no bambolê de promessas falsas e beijos em crianças sebosas, mas tocou lá na urninha e, enquanto o poeta sonhava, concretizou-se o Brasil que se quer. Poeta em dia de eleição fica sem muita vontade de escrever, pois não quer encarar que o povo às vezes, muitas vezes, ainda faz brasileirice caduca. Vota por dinheiro, vota por uma saca de cimento ou mesmo por uma dentadura. Tem gente que vota por um litro de leite, pelo agronegócio, pela miséria dos valores familiares, vota pela inconsistência da democracia, pela insanidade republicana, pela falta de união com os conterrâneos e a falta de entendimento do compromisso que existe entre o ”território Brasil” e o ”povo, povo brasileiro”. Por isso, já dizia ele, vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos, tudo que é gratuito e feio, tudo o que é normal, vamos cantar juntos o Hino Nacional. Vamos. Eu começo. Ouviram do Ipiranga os gritos plácitos de gente que trabalhou a vida inteira e hoje não tem mais direito a nada. A nada, exceto a pouca instrução e a um pouco de atenção de quatro em quatro anos. "
" As estrelas que dissemos que contaríamos juntos começaram a esfriar na noite de ontem. Não virou manchete quando derramaram nanquim no meu céu. Olhar pro infinito e não ver nada é cair em si. Deixar você partir foi como cair em mim, tropeçar nos meus próprios cadarços e nos meus próprios medos, beber do meu sangue enquanto tentava me esvaziar. Ontem, quando as estrelas esfriaram, tive pena dos cigarros imaginários que fumei esperando que a fumaça incendiasse aquela espécie de ponto final que mora lá em cima. Aquela espécie de limite que quase não posso ver, onde toda e qualquer pessoa com o mínimo de sanidade deseja conhecer quando se acabar. As estrelas que dissemos que contaríamos juntos, não vimos esfriar. Mas eu vi as cinzas se transformarem em uma nova galáxia, onde eu percebi que fui deixando qualquer pessoa entrar esperando que alguma delas fosse você. Eu já não lembro mais do seu rosto, do seu nome e das suas manias, mas as estrelas que contaríamos juntos, esquecemos de contar. Você, que eu não sei quem é, faz parte de mim mais do que todos os meus outros restos. Porque cada dor que eu sinto pode ser você… Então, eu deixo lá. Acumulada como uma estrela morta e sangrada. Todas as dores são lindas como eu lembro que você era. É difícil resistir. A morte de cada estrela é um pedido realizado… Estrelas cadentes e carentes, eu diria. Ontem, meu pedido foi pra ter o que amar. O que você acha que acontece quando as pessoas morrem? Quando os cometas caem? Quando as pessoas que dizem que nunca vão partir, partem? Toda pessoa partiu pelo menos uma vez na vida. Eu me parto ao meio todos os dias. Esquecer de contar as estrelas é uma forma de fazer com que elas vivam pra sempre. E você não imagina como é triste viver pra sempre. É provável que estrelas cadentes sejam estrelas suicidas. Mas minhas estrelas, que de tão minhas são tão suas, esfriaram e caíram, todas elas. Eu sinto muito. Sinto muito se esperei demais para terminar de contar as estrelas. Se fiz elas sofrerem esse tempo todo… Se fiz o céu um pouco mais apertado pra sua alma adolescente enforcada num drama qualquer. Eu deveria ter inventado um infinito e dito que estava tudo bem. Todas as lágrimas, e toda a solidão, todas as noites, todas as luas, todas as estrelas, devidamente contabilizadas. Cada estrela que não contamos conta um segredo meu pra imensidão. Cada estrela que morre sem um funeral é por culpa minha. E, de novo, você sabe o que acontece depois da morte? Você sabe o que acontece depois da morte de uma estrela? Talvez, se eu escolhesse me matar hoje, algum dos seus desejos se tornaria realidade. Talvez, aquele seu desejo de morrer. Porque você sabe que só existe em mim e em mais ninguém. Mas eu não vou me matar hoje. Nem nunca. Só quando eu terminar de contar todas as estrelas. E sim, seria incrível se virássemos mesmo estrelas quando morrêssemos. Você é uma das minhas estrelas, e sabe disso. O que eu tenho medo, porém, é de que você caía qualquer dia desses. Ontem, eu vi uma estrela fria e suicida. Se foi você, você que eu amo e não sei quem é, tudo bem. Eu termino de contar as estrelas sozinho. De novo. "
" Eu olhava pro céu e só lembrava de ti. Eu sentia tantas coisas. Eu não conseguia acreditar no que você havia me falado instantes antes. Eu tinha mil e uma coisas pra te falar, mil e um textos para te fazer, mil e uma poesias para te recitar, mas nada saia. Não tinha como. Eu havia tanto pra te dizer, tanta coisa, mas não sabia como falar; não sabia por onde começar. Eu não tinha palavras pra descrever tantos sentimentos e sensações. "
" A lanchonete estava vazia, mas mesmo assim, sentei na mesa e peguei meu livro. Vitrine de defeitos esse meu livro, tem uma métrica inconstante, um enredo vacilante, um desfecho pouco emocionante e histórias tão casuais que você bate o olho e diz ”eu podia fazer isso até melhor”. Eu pedi um café com leite, mais panquecas, mais molho doce, mais uma coisinha de açúcar para adoçar o céu da boca que está nublado no dia de hoje. Na pressa, como as panquecas, me engasgo e é só. Somente quando vejo a tiragem de 500 cópias que continuo lendo continuamente. Só eu comprei dez exemplares para presentear amigos e familiares. Não, não, mais nada não, garçonete, estou bem, já estou até quase satisfeito com esse aperitivo. Não tenho o hábito de comer assim que acordo, é mais uma obrigação. Frequento essa lanchonete simbolicamente, como as mesmas coisas também simbolicamente, pois cá escrevi meu primeiro livro, pois caí usei o guardanapo para dar um autógrafo não autorizado para a garçonete, pois cá fiz meus primeiros amigos leitores. O marido da garçonete, o dono da lanchonete, o cara de moletom que vem todos os dias espantar as moscas e atrair clientela e até aquele menininha de vestido rosado e olhos claros por quem me apaixonei platonicamente umas quinze vezes ao longo de quinze dias. A lanchonete estava vazia, mas mesmo assim, folheei meu livro e vi meu reflexo nas páginas. Vi os dias incontáveis bebendo leite e limpando o bigode com o lenço da tia. Vi tosando o pelo, fazendo caretas de concentração e tomando ar para continuar um sonho que tive. Quis ser poeta aos catorze, mas não sei se consigo ser poeta nesse mundo moderno. A modernidade me assusta, se não fosse ela eu escreveria à mão e sobreviveria de algum dinheiro ganho com a minha tinta impressa. As pessoas leriam. Eu sentaria com mais prazer para banquetear na lanchonete da esquina. "